Homenagem à Dom Pedro Casaldáliga pela defesa dos índios xavante
Bispo emérito de São Felix do Araguaia, Casaldáliga teve que mudar do município após receber constantes ameaças de morte; Hoje vive sob proteção policial
08/02/2013
Xico Esvael
Dom Pedro Cadaldáliga, outras lideranças
estão sendo ameaçadas de morte em razão da
devolução de terras aos xavante - Foto: Reprodução
Estivemos presente, representando a Comissão de Direitos Humanos da IEAB no ato que homenageou o bispo emérito de São Felix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, no dia 07 de fevereiro, às 19h, no Salão Nobre da Câmara Municipal de São Paulo (SP). Fomos ao evento promovido pelo Comitê de Solidariedade a Dom Pedro Casaldáliga e ao Povo Xavante, que contou com a presença de lideranças do Movimento Popular, das Igrejas Ecumênicas e de parlamentares entre eles: Senador Eduardo Suplicy e Deputada Luiza Erundina. Destaque para a presença significativa de Hamilton Pereira mais conhecido pelo seu pseudônimo artístico: Pedro Tierra. Poeta é autor entre outras obras da Missa da Terra sem Males em parceria com Pedro Casaldáliga e Martim Coplas (Livramento, Tempo e Presença, S. Paulo); Missa dos Quilombos, com Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento.
A IEAB através de sua pastoral indígena sob a liderança do bispo Dom Almir sempre esteve presente na defesa dos povos indígenas. Em Brasilia, em evento promovido por aquela Diocese da IEAB, tive a oportunidade e honra de conhecer alguns membros da etnia Xavante entre eles um cacique.
Dom Pedro Casaldáliga (84 anos) se destaca por sua luta em defesa dos direitos da população indígena da etnia Xavante. Após receber constantes ameaças de morte, teve que se afastar do município de São Félix do Araguaia onde reside no Mato Grosso no final do ano passado, No dia 29 de dezembro regressou a São Félix e agora vive sob proteção policial.
O afastamento da região para uma localidade não revelada por motivos de segurança causou perplexidade e estimulou o apoio de organizações da sociedade civil, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), da Igreja Católica e de outras denominações cristãs ligadas ao CONIC.
Reconhecido como crítico da ditadura civil-militar (1964-1985), Casaldáliga está no Brasil desde 1968 e defende a devolução das terras batizadas como Marãiwatsédé aos indígenas xavantes. Além dele, outras lideranças – entre indígenas e agentes ligados à Igreja – estão sendo ameaçadas de morte desde que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) começou o processo de retirada de não-índios do território Xavante.
A Terra Indígena
A terra Marãiwatsédé tem 165.241 hectares e está localizada entre os municípios de São Félix do Araguaia, Alto Boa Vista e Bom Jesus do Araguaia, no Mato Grosso. De acordo com estudos antropológicos, ela sempre foi ocupada por indígenas até que, no ano de 1966, aviões da Força Aérea Brasileira realizaram o deslocamento forçado dos nativos para a Missão Salesiana São Marcos, a 400 quilômetros dali. No novo local, dois terços dos indígenas acabaram sendo dizimados devido a um surto de sarampo.
Segundo a Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo, o deslocamento forçado foi influenciado pela família Ometto, detentora de terras na região. Os hectares indígenas foram tomados pela família que, em 1980, os negociou com a empresa italiana Agip Petróleo. Depois de pressão internacional, a empresa informou durante a ECO 92 que devolveria as terras aos nativos. Entretanto, o gerente da fazenda, Renato Grilo, por meio de articulações com políticos locais, incentivou a ocupação das terras pela população não indígena.
Foto: Daniel Santini
Atualmente, a terra Marãiwatsédé tem 61,5% do território desmatado e é ocupada, fundamentalmente, por grandes proprietários de terras. Vale citar o ex-vice-prefeito de Alto da Boa Vista, Antonio Mamede Jordão, dono da Fazenda Jordão com 6.193 hectares; o ex-prefeito do município de Alto Boa Vista, Aldecides Milhomem de Cirqueira, que possui seis fazendas, num total de 2.200 hectares; e o desembargador do Tribunal de Justiça do Mato Grosso, Manoel Ornellas de Almeida, cuja fazenda tem 886,8 hectares.
Homologada como área indígena em 1998, é a que registra o maior desmatamento na Amazônia Legal. Em 2010, a Justiça Federal determinou a saída dos não índios das terras, em decisão unânime.
Com informações da Pastoral Operária Metropolitana de São Paulo
Dom Pedro Cadaldáliga, outras lideranças
estão sendo ameaçadas de morte em razão da
devolução de terras aos xavante - Foto: Reprodução
Foto: Daniel Santini
Direitos Humanos em Risco
Dois projetos de lei aprovados pelo Congresso Nacional, foram encaminhados para a sanção da presidenta Dilma Rousseff. Como disse em seu programa Café com a Presidenta “são duas leis importantíssimas para fortalecer a democracia no nosso país. A Lei do Acesso a Informações Públicas e a Lei da Comissão da Verdade vão tornar o Estado brasileiro mais transparente, vão garantir o acesso a informações e, também, Luciano, à história do nosso povo.”
O país necessita de uma aplicação profunda dessas leis para combater a violência que hoje perdura em nossa sociedade e se manifesta em práticas autoritárias que persistem arraigadas. Essas violências se expressam quando forças de segurança nos estados vigiam e reprimem manifestações pacíficas, quando no judiciário são perseguidos cidadãos que participam da vida política de determinadas jurisdições, quando o pobre, o negro e o indígena são tratados rotineiramente como suspeitos, quando a tortura forja depoimentos, mata nas delegacias e se espalha como uma chaga na sociedade, quando se extermina e se pratica chacina no campo e nas cidades com vítimas desaparecidas em maio de 2006. Seriam tantos exemplos que cada qual comente mais três…
Leai o artigo na íntegra em: http://koinonia.mktenvios.net/ver_mensagem.php?id=H|424|24677|132018067073003400
Crise na África pode matar 400 mil crianças somalis
A crise de fome, seca, conflitos e alta dos preços dos alimentos continuam a castigar o Chifre da África (região Nordeste do continente que compreende países como Somália, Uganda, Etiópia, Quênia, Djibuti e Eritréia). A crise na Somália, por exemplo, já matou 30 mil crianças de fome e já é considerada a pior dos últimos 60 anos.
Aproximadamente 400 mil crianças somalis podem vir a morrer de fome em breve se nenhuma medida urgente for tomada. As informações são da agência de notícias Associated Press. A advertência foi feita após a visita do secretário de Desenvolvimento Internacional da Grã-Bretanha, Andrew Mitchell, à capital da Somália, Mogadíscio.
O ministro se reuniu com líderes do governo local e com representantes de grupos humanitários internacionais. Esta foi a primeira vez que um ministro britânico visitou a cidade nos últimos 18 anos. No país vizinho, Quênia, Mitchell disse que a Grã-Bretanha doará ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) o equivalente a mais de 41 milhões de dólares em ajuda adicional.
A falta de ajuda alimentar deixa 3,6 milhões de pessoas sob o risco da fome no sul da Somália. No total, mais de 12 milhões de pessoas estão sentindo os efeitos da estiagem, a pior em décadas. Os dados são da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
A CNBB e Cáritas Brasileira estão organizando uma campanha humanitária em favor dos países africanos.
Discriminação jurídica contra mulheres
O relatório O Progresso das mulheres no mundo (2011-2012): em busca da Justiça, lançado recentemente pela ONU Mulheres, aponta discriminação jurídica contra mulheres em todos os continentes, com leis discriminatórias relacionadas à família, propriedade, trabalho e cidadania. Para erradicar a injustiça, o texto traz dez recomendações e mostra exemplos em que as violações foram vencidas e abriram caminho para a garantia de direitos.
“Em muitos contextos, tanto em países ricos como pobres, a infraestrutura judiciária, incluindo a polícia, os tribunais e o judiciário, tem fracassado no respeito aos direitos da mulher, fracasso que se manifesta na prestação inadequada de serviços e na atitude hostil de quem tem o dever de satisfazer as necessidades das mulheres”, aponta.
Em todo o mundo, há mais de 603 milhões de mulheres cujos países não proíbem por lei a violência doméstica. O documento lembra que o século passado trouxe muitas conquistas às mulheres, com leis que garantem seus direitos. Contudo, “não se traduziram em maior igualdade e justiça”, aponta.
Apesar de atualmente 186 países terem ratificado a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (Cedaw), “é frequente que às mulheres se negue o controle sobre seu corpo, a participação na tomada de decisões e a devida proteção contra a violência”. O órgão denuncia que mais da metade das 600 milhões de mulheres que trabalham, em todo o mundo, estão em empregos vulneráveis e inseguros, que não cumprem as leis trabalhistas.
Também a violência sexual atinge fortemente as mulheres. Segundo o relatório, milhões de mulheres já sofreram algum tipo de violência na vida, comumente levada a cabo pelo próprio parceiro. Outra triste realidade é o uso do corpo das mulheres como arma de guerra, ainda comum em situações de conflito.
Entre os avanços, o relatório cita que atualmente 173 países garantem licença maternidade, 139 constituições garantem igualdade entre mulheres e homens, 125 tornaram ilegal a violência doméstica, 117 países promulgaram leis que estabelecem igualdade salarial e 115 países garantem igualdade dos direitos de propriedade.
Por outro lado, 127 países não penalizam explícitamente a violação dentro do matrimônio e 61 restringem rigidamente os direitos das mulheres ao aborto.
Frente a este quadro, as principais recomendações do relatório são apoiar organizações jurídicas de mulheres, que em países com Estado ausente, prestam assessoria às mulheres e que os países criem um canal único de atenção às mulheres, onde elas possam encontrar apoio jurídico e de saúde em casos de violações.
A ONU Mulheres propõe ainda reformas legais para sensibilizar sobre a questão de gênero; estabelecer cotas para ocupação do Parlamento por mulheres e conseguir com que cada vez mais mulheres estejam na primeira linha da Justiça, com o intuito de sensibilizar o setor para a questão feminina.
“Foi comprovado que nos lugares onde foram aplicadas (as recomendações), tem-se conseguido aumentar o acesso das mulheres à justiça e promover a igualdade de gênero”, defende.
Entre os casos emblemáticos de vitória jurídica, o relatório apresenta o caso de Meera Dhungana, no Nepal. Ela foi violada pelo esposo, porém, a lei nacional não reconhecia o ocorrido como delito. Em 2002, a história foi levada ao Fórum para as Mulheres, Direito e Desenvolvimento, e a Corte Suprema do país ordenou ao Parlamento que fizesse emenda à lei e reconhecesse a violação. “Atualmente, 52 paíse ao redor do mundo penalizam explicitamente a violação conjungal em seus códigos penais”, comemora a ONU Mulheres.
Outro caso que abriu caminho para a justiça é o de Martha Solay, colombiana que lutou, em 2006, contra a lei que proíbe o aborto mesmo em caso de risco para a gestante. “A Corte reconheceu que a proibição violava os direitos fundamentais das mulheres e que o aborto deve ser uma alternativa em certos casos”, relata o documento.
Mais uma boa notícia vem da República Democrática do Congo, onde nove tribunais móveis cuidaram de 186 casos em 2010. 115 casos eram de violação, resultando em 95 condenações. Já em fevereiro deste ano, um destes tribunais condenou um caso de crime de lesa humanidade – nove soldados foram condenados por participação em violação de 40 mulheres e meninas, ocorrida poucas semanas antes.
Marcha das Margaridas cobra desenvolvimento sustentável do País
A Marcha das Margaridas, movimento de protesto contra as desigualdades sociais e de denúncia da violência e exploração das trabalhadoras rurais, se concentrou em frente à rampa do Congresso Nacional na manhã desta quarta-feira, 17 de agosto, em Brasília (DF). O movimento de 2011 teve como lema desenvolvimento sustentável com justiça, autonomia, igualdade e liberdade.
A manifestação é coordenada pelo Movimento Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais, composto pela Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag), por 27 federações e mais de 4 mil sindicatos. A mobilização de mulheres trabalhadoras rurais do campo e da floresta ganhou esse nome em homenagem à trabalhadora rural e líder sindical Margarida Maria Alves, assassinada na Paraíba em 12 de agosto de 1983.
Compromisso de países com refugiados será revisto
O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) realizará, no final do ano, em Nova Iorque, reunião em nível ministerial, quando os países da ONU deverão apresentar os compromissos para fortalecer a proteção e a assistência aos refugiados e apátridas.
Números do Acnur indicam a existência de 10 milhões de refugiados. Mas excede em três vezes esse dado o número de pessoas deslocadas internamente (PDIs). Na atualidade há, ainda, 6 milhões de apátridas no mundo.
A Colômbia, com 3 milhões de pessoas, tem um dos maiores números de desabrigados e desalojados internos. Os palestinos são um terço da população refugiada do mundo.
Guerras, mudança climática, crescimento populacional, desenvolvimento ambientalmente insustentável, falta de oportunidades econômicas, conflito por causa da terra e acesso à água são causas que levam ao deslocamento interno ou mesmo a busca de refúgio em outro país.
Existe diferença conceitual entre imigrante, deslocado e refugiado. As pessoas deslocadas permanecem no seu próprio país. Elas não cruzam as fronteiras internacionais, o que é um dos critérios para definir um refugiado.
O termo refugiado, explicou a antropóloga e professora Denise Jardim, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em entrevista para o Instituto Humanitas, começou a ser concebido durante a guerra civil espanhola para se referir àquelas pessoas civis que saíram de sua cidade, atravessaram o monte Pirineus no inverno, a pé, e não tinham perspectiva de retorno.
Já o imigrante tem a perspectiva de retorno, mesmo que imaginada. “O refugiado raramente consegue uma inserção no local de origem, seja porque aquele local social não existe mais, ou porque há enormes limitações ao ‘retorno’, entre elas o desejo de não reviver uma situação de violência ou complicações político-ideológicas a serem enfrentadas”, definiu Denise.
A Convenção de Genebra sobre o Estatuto de Refugiados reconhece como solicitantes de asilo pessoas que sofrem em seus países de origem perseguição por razões étnicas, religiosas ou políticas. Mas uma das principais razões para a imigração ou busca de refúgio é de cunho econômico. O fluxo de imigrantes e refugiados ainda é econômico, em grande parte.
Mas também começam a ganhar destaque os refugiados ambientais. “Países como o Chile, o Haiti e o México têm um alto grau de vulnerabilidade sísmica, enquanto outros, como a Colômbia e países do Caribe enfrentam a cada ano fenômenos hidrometeorológicos, como furacões e temporadas de chuvas invernais, lembrou para o IHU o diretor do Serviço Jesuíta para Refugiados, padre Alfredo Infante.
Sejam quais forem os motivos, muitos países não querem mais receber refugiados. A Europa, os Estados Unidos e a Austrália não querem abrigar refugiados oriundos da África. A própria África do Sul fecha as portas para essa população.
O diretor do Centro de Estudos sobre Refugiados da Universidade de Oxford, Roger Zetter, observa que o processo de migração de refugiados passou a ser um fenômeno global a partir dos anos 90 do século passado. Existe grande resistência dos países do “norte” global de receber refugiados e requerentes de asilo do “sul” global.
Documentos mostram evangélicos nos porões da ditadura
por Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
Torturados e delatores da grei evangélica brasileira ganham visibilidade nos documentos que o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) repatriará oficialmente ao Brasil na quarta-feira, 14, entregando 1 milhão de páginas microfilmadas que estavam no Center for Research Libraries, de Chicago, e 10 mil páginas inéditas da correspondência entre o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, e o pastor presbiteriano unido, James Wright.
A revista semanal IstoÉ antecipou, na semana passada, histórias de evangélicos entrevistando pastores e líderes evangélicos que passaram pelo pau de arara e aqueles que os conduziram até os porões da ditadura, nos Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi).
Os evangélicos carregam uma mancha em sua história por convidar a repressão a entrar na Igreja e perseguir os fiéis, comentou ao repórter Rodrigo Cardoso o antropólogo Rubem Cesar Fernandes, 68 anos, de origem presbiteriana, preso antes do golpe, em 1962, por participar do movimento estudantil.
“Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”, disse Fernandes, considerado “elemento perigoso” por pastores que o incluíram numa lista entregue aos militares, depois do golpe.
O pastor batista Roberto Pontuschka, capelão militar, torturava presos à noite e de dia distribuía porções do Novo Testamento aos detentos nas dependências da Operação Bandeirantes (Oban), de São Paulo. Com 21 anos à época, o então seminarista da Igreja Presbiteriana Independente e hoje teólogo e professor de ciências da religião na Umesp, Leonildo Silveira Campos, preso por dez dias pela Oban, em 1969, não esqueceu o método evangelístico do pastor Pontuschka.
Pai de quatro filhos, Anivaldo Padilha, 71 anos, só veio a conhecer o seu filho Alexandre, hoje ministro da Saúde do governo da presidenta Dilma Rousseff, aos oito anos de idade. Em mais de 20 dias de tortura, em fevereiro e março de 1970, no DOI-Codi de São Paulo, o então estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo, com 29 anos de idade e ligado à Igreja Metodista, chegou a pensar em suicídio. Libertado depois de dez meses de prisão, Anivaldo partiu para o exílio, de 13 anos, no Uruguai, Suíça e Estados Unidos.
“Eu tinha muito medo do que ia sentir na pele, mas principalmente de não suportar e falar. Queriam que eu desse o nome de todos os meus amigos, endereços” relatou Anivaldo ao repórter da IstoÉ. Ele descobriu seus delatores há cinco anos, ao ter acesso a documentos do antigo Sistema Nacional de Informações. Quem o delatou foram o pastor José Sucasas Jr. e o bispo Isaías Fernandes Sucasas, da Igreja Metodista, já falecidos, aos quais Anivaldo era subordinado.
Nos anos de chumbo, controlados pelos militares, pedir justiça aos excluídos, defender a reforma agrária e manifestar preocupações sociais eram coisas de comunistas, apoiados pelo movimento ecumênico.
“Fui expulso, com mais oito colegas, do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1962, porque o nosso discurso teológico de salvação das almas passava pela ética e a preocupação social”, contou à IstoÉ o mineiro Zwinglio Mota Dias, 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU).
Dos 54 estudantes matriculados no seminário teológico de Campinas, 39 foram expulsos em 1967. No mesmo ano, a Igreja Metodista fechou a Faculdade de Teologia de São Paulo e expulsou estudantes e professores. O pastor Boanerges Ribeiro, presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), promoveu uma “depuração interna” na igreja em 1965. A Igreja Presbiteriana Independente (IPI) expulsou dez seminaristas em 1968.
Dois anos depois, a Federação Luterana Mundial cancelou assembléia geral que realizaria em Porto Alegre porque, entre outros motivos, a igreja brasileira convidara o presidente da República, general Emília Garrastazu Médici, para a abertura do evento. Líderes luteranos negavam, então, a existência de práticas de tortura no Brasil.
Vários evangélicos colaboraram com a máquina repressora da ditadura, delataram irmãos e assumiram o discurso do anticomunismo como a salvação do Brasil. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém”, confessou Padilha.
Nesses anos todos, Padilha descobriu, depois de se deparar casualmente, em festa de Carnaval, com um de seus torturadores, que o perdão é libertador.
“O perdão, para mim, foi uma forma de exorcizar os demônios das torturas que me causaram pesadelos durante quase seis anos. Há situações em que o perdão é mais importante para quem perdoa do que para quem é perdoado. No entanto, isso não significa que eu acho que os torturadores, seus mandantes e colaboradores não devam ser punidos. A punição deles é importante para resgatar a dignidade dos que foram torturados, da memória dos assassinados, das famílias que não puderam ainda sepultar seus membros desaparecido. Além disso, a impunidade contribui para que a tortura ainda seja praticada em larga escala nas delegacias e prisões brasileiras. Em suma, a punição representaria o resgate da dignidade da sociedade brasileira que foi violentada por um regime autoritário”, afirmou o metodista.
Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright serão lembrados no ato de repatriação dos documentos que estão de posse do CMI, que terá lugar em São Paulo, amanhã, na Procuradoria Regional da República. Eles foram os grandes articuladores do Projeto Brasil Nunca Mais.
O projeto Brasil Nunca Mais teve início em plena ditadura militar (1964-1985), quando grupo de religiosos e advogados tentou obter, junto ao Superior Tribunal Militar (STM), informações e evidências de violações aos direitos humanos, praticadas por agentes do aparato repressivo. Do projeto originou-se o livro com o mesmo nome – uma compilação com cerca de 5% de toda a documentação levantada no STM.
Os mentores do projeto – em especial a advogada Eny Raimundo Moreira e a equipe do escritório Sobral Pinto – perceberam que os processos poderiam ser reproduzidos, aproveitando-se do prazo de 24 horas facultado pelo Tribunal de retirada dos autos para consulta.
A ideia foi acolhida por Jaime Wright e dom Paulo, que resolveram comandar as atividades a partir de São Paulo. Os recursos financeiros para o projeto foram obtidos com o secretário-geral do CMI.
As cópias dos processos eram remetidas de Brasília a São Paulo. Diante da preocupação com a apreensão do material, a alternativa encontrada foi microfilmar as páginas e remeter os filmes ao exterior.
Após seis anos de trabalho em sigilo, a tarefa foi finalizada, com a reprodução de 707 processos, totalizando cerca de um milhão de cópias em papel e 543 rolos de microfilme. Foi produzido, ainda, um documento-mãe denominado “Projeto A”, com a análise e a catalogação das informações constantes dos autos dos processos judiciais em 6.891 páginas dividas em 12 volumes.
Considerando a dificuldade de leitura e até de manuseio deste trabalho, foi idealizada a confecção de um livro que resumisse o documento-mãe em um espaço 95% menor. Para operacionalizar a tarefa, foram escolhidos os jornalistas Ricardo Kotscho e Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), coordenados por Paulo de Tarso Vannuchi.
Em 15 de julho de 1985, quatro meses após a retomada do regime democrático, foi lançado o livro “Brasil: Nunca Mais”, pela Editora Vozes, publicação que mereceu destaque na imprensa nacional e internacional. O livro foi reimpresso 20 vezes somente nos seus dois primeiros anos. Atualmente, ele está na 37ª edição (2009).
Cardeal Arns, Pastor Wright, Vanucchi e Eny Moreira são aplaudidos de pé
por ALC - Marcelo Schneider
Ao chegar em Genebra, em 1978, a advogada brasileira Eny Moreira apresentou a Chuck Harper a ideia de organizar um arquivo com cópias feitas em segredo dos autos da ditadura militar no Brasil, o representante do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) ficou motivado: “Isso é possível? Podemos mesmo fazê-lo? - perguntou. Eny respondeu: “Sim, mas precisamos de apoio para o que o reverendo Jaime Wright e dom Paulo Evaristo Arns estão fazendo.”
Naquele dia começava o envolvimento do CMI num dos esforços coletivos mais complexos de resgate da verdade e da dignidade de centenas de seres humanos que sofreram abusos de um regime ditatorial.Parte desses esforços culminaram na tarde de 14 de junho, em São Paulo, no evento público de repatriação de documentos e microfilmes mantidos a salvo no exterior pelo CMI, na Suíça, e pelo Center of Research Libraries (CRL), nos EUA. Os documentos foram entregues às autoridades brasileiras para disponibilizá-los, no prazo de um ano, para consulta pública de qualquer cidadão através da internet. Essa nova interface do projeto chama-se “Brasil: Nunca Mais” Digit@l.
Por mais de quatro horas, cerca de 200 participantes reuniram-se no auditório da Procuradoria Regional da República – 3ª Região, nesta capital, para ouvir 19 oradores representando autoridades públicas, membros de órgãos governamentais, representantes de igrejas e de diversas esferas desse processo de cooperação multilateral que marcou o projeto “Brasil: Nunca Mais”.
O quadro de forte apelo por justiça e verdade presentes nas falas dos vários oradores criou um ambiente reconfortante e acolhedor para o testemunho de dois ativistas ecumênicos que sofreram abusos da ditadura militar na década de 70.
O ex-funcionário do CMI, Anivaldo Padilha, da Igreja Metodista do Brasil e hoje colaborador de Koinonia - ACT Aliança, não conseguiu segurar as lágrimas, várias vezes, quando partilhou detalhes do que lhe aconteceu quando foi preso em 27 de fevereiro de 1970. Após sua libertação, Padilha foi enviado para o exílio e forçado a viver longe de sua esposa, que à época estava grávida. Padilha só veio a conhecer o filho depois da lei da Anistia, quando este já tinha 8 anos de idade.
Eliana Rolemberg era uma das amigas de Padilha presa no mesmo dia. Ela expressou seu sentimento de repulsa em relação aos abusos sofridos nas mãos violentas de seus opressores, destacando a realidade duplamente desesperadora que enfrentava: De um lado, havia o constante medo das ameaças envolvendo sua filha, ainda bebê. De outro, a dor de ver e ouvir seus amigos serem torturados. “De uma forma muito conflituosa, é mais fácil a gente ser torturada do que ver quem a gente ama sofrer esse tipo de abuso”, disse. Eliana é diretora-executiva de outra organização da ACT Aliança no Brasil, a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE).
O “Brasil: Nunca Mais” Digit@l está sendo lançado num momento em que a sociedade brasileira discute a criação de uma Comissão da Verdade para revisar violações dos Direitos Humanos praticados, no passado, pelo Estado.
Um dos palestrantes do evento, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) do Rio de Janeiro, Wadih Damous, disse que o se procura hoje com a formação de uma Comissão da Verdade é trazer à tona uma luta que não prevê vingança, mas justiça.
“O direito que perseguimos é o de ver aqueles que cometeram esses crimes responderem no banco dos réus pelo que fizeram. A impunidade dos autores do passado é uma mensagem clara para aqueles que cometem a tortura hoje. As vítimas da tortura no Brasil, hoje, não são mais ativistas políticos, mas os afro-descendentes, os indígenas, as crianças e os todos os excluídos “, alertou.
O presidentes do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), dom Manoel João Francisco, e o presdiente o presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), bispo anglicano panamenho Julio Murray, também tiveram a oportunidade de saudar o público presente.
Murray integrou a Comissão da Verdade do Panamá, que lidou com casos de abusos cometidos entre 1964 e 1994. Ele sublinhou o aspecto da cura que uma comissão desta natureza pode trazer: “No meio da morte e da tragédia também vemos sementes de esperança através de nossa inconformidade e mobilização”, afirmou.
Referindo-se ao papel do CMI no projeto “Brasil: Nunca Mais”, o procurador-geral da República, Roberto Monteiro Gurgel Santos, expressou gratidão ao organismo ecumênico internacional por ter somado esforços cruciais para a defesa e conservação do patrimônio público e de um importante capítulo encoberto da história brasileira.
Em seu discurso, o secretário geral do CMI, pastor Olav Fykse Tveit, agradeceu a todos os envolvidos nesse processo, ao mencionar os nomes de Eny Moreira, dom Paulo Evaristo Arns e do presbiteriano Jaime Wright, que trabalharam intensamente para articular o processo de cópia dos documentos em segredo e mantê-lo seguros.
Também lembrou Charles R. Harper, que atuou no CMI, de 1973 a 1992, como diretor executivo para questões de Direitos Humanos na América Latina. Harper, que vive, atualmente no Sul da França, não pôde comparecer ao evento, mas foi representado por sua neta, Nina, que recebeu expressiva ovação do público.
Ao saudar o procurador regional da República, Marlon Weichert, que trabalhou estreitamente com o CMI e o CRL preparando a transferência da documentação para o Brasil, Tveit afirmou que o evento foi além das expectativas. “Isso realmente mostrou o valor do que nós mantivemos em nossos arquivos e como é importante compartilhar a história e a realidade do que aconteceu. Também é importante ver o que acontece quando trabalhamos juntos. Os momentos que experimentamos, hoje, mostraram claramente o papel que o movimento ecumênico desempenha neste tema, oferecendo apoio e também uma estrutura para que projetos se tornem realidade”, disse.
A advogada Eny Moreira foi uma das homenageadas pela Procuradoria Geral da República por seu envolvimento no projeto. Ao agradecer a homenagem, Moreira lembrou dos companheiros de caminhada e destacou o sentimento de solidariedade silenciosa dos envolvidos no trabalho.
Após o evento, o moderador do Comitê Central do CMI, pastor luterano Walter Altmann, expressou seus sentimentos, como brasileiro e como membro da liderança do organismo ecumênico. “Fiquei extremamente tocado pelo evento como um todo, pelos discursos, pelos fortes e dolorosos testemunhos que ouvimos, assim como pelos compromissos que queremos continuar a honrar. É um marco importante para o povo e a nação brasileira. Estou realmente orgulhoso do papel que o CMI desempenhou e continua a desempenhar através de sua secretaria geral ou pelo trabalho das igrejas-membro no Brasil”, afirmou.
A delegação do CMI segue em São Paulo pelo resto da semana acompanhando o econtro de famílias confessionais do CLAI e visitando iniciativas de igrejas-membro do CMI no Brasil. No último dia da visita ao Brasil, dia 19, Tveit irá pregar em culto ecumênico, a ser realizado às 10:45 na Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo.
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