Carta Pastoral à DAC, reunida em seu 6º Concilio Diocesano, na Paróquia de São Lucas/Cascavel, de 14 a 16 de novembro de 2008, sob o tema Missão e Responsabilidade Cristã.  

          

“Jesus disse para eles: sigam-me… eles deixaram imediatamente as redes, e seguiram a Jesus”. Mateus 4.18 – 25  (Próprios da Festa de Santo André).    

 

 1.      Em nome do Pai, nosso criador, em nome do Filho, nosso Salvador, em nome do Espírito Santo, sopro divino, advogado e guia. Amém.         

2.      Saudamos a comunidade diocesana reunida para mais uma assembléia, com alegria cristã, e na esperança de que tenhamos tempo de encontro, celebração e partilha, que nos renove e impulsione ao serviço do Senhor. Somos gratos à São Lucas que nos acolhe neste concilio diocesano. Usufruamos, pois, da hospitalidade e acolhida cristã destes irmãos e irmãs.

 3.      Continuamos tratando do tema Missão e Responsabilidade Cristã. É algo que faz parte da nossa natureza como igreja. Entretanto, precisamos avançar ainda mais na expressão e práxis dessa natureza, para que vivamos a missão à maneira de Deus e de seu Filho Jesus. “Missão é uma tarefa que recebemos para realizar”, concluiu uma irmã num dos encontros que estão sendo realizados em toda as comunidades da diocese. Sua origem está no próprio Deus, que chama, equipa, e envia. Deus é um Deus que “envia”. Chama e envia Abraão. Chama e envia Moisés. Chama e envia os profetas. “E, por último, enviou seu Filho amado”. E Ele, por sua vez, chama e envia apóstolos e apóstolas, como no texto do Evangelho de Mateus que lemos há pouco. Por que Deus chama? Qual a razão, objetivo do seu chamado? Deus chama e envia Abraão para ser uma bênção, para ser veículo da graça e da promessa de Deus, para sua própria descendência e para todos os povos. Multidões estavam sendo deslocadas de suas terras, viviam sem esperança e sonhos. A “imigração” de Abraão e sua família mostra que é possível ter esperança e sonho, por um “novo céu e uma nova terra”, onde pudessem ter um lugar para viver, produzir, alimentar e ver seus filhos crescerem com alegria e dignidade. Deus chama e envia Moisés por causa do povo sofrido e escravo no Egito. “Vi o sofrimento de meu povo, me compadeci e desci para libertá-lo. Vai e diz ao faraó que os liberte”. Deus enviou seu Filho, pois “amou o mundo de tal maneira que o enviou para a salvação de todo aquele que crê”. Aos discípulos, chamados, conforme o Evangelho de hoje, Jesus diz: “Sereis pescadores de homens a partir de agora”. E foram pelas cidades e povoados fazendo o bem, curando, libertando. O que é que movimenta Deus? Obviamente, seu grande amor por toda a criação e criaturas e a situação em que elas vivem. Seu amor o faz ver. Vendo, o faz agir. Assim é Deus. Assim é e age Jesus nos evangelhos. Assim são os apóstolos e apóstolas, discípulos e discípulas, ao serem enviados “ao mundo”. Assim agiu e procurou ser e viver a igreja cristã primitiva, conforme vemos nos Atos dos Apóstolos.

 4.      O encontro com Jesus, seu chamado, demanda decisão (largaram suas redes, seus barcos, deixaram seu pai)  e compromisso ( o seguiram), conforme o texto de Mateus 4. 18-25. No batismo, “fomos selados pelo Espírito Santo com o sinal da Cruz de Cristo”, o celebrante acrescenta: “És de Cristo para sempre”. Este encontro com Cristo e sua marca, sendo aceita por nós, e em todos os momentos que viemos à mesa da comunhão eucarística, renovamos este sinal de pertença a Cristo, somos de novo, chamados a tomar a decisão de segui-lo. E, em decidindo, nos comprometemos “a brilhar como luz no mundo, para a glória de Deus Pai”. Como e onde se manifesta essa luz? Ela se manifesta no mundo, através de gestos concretos que expressam o amor de Deus. No batismo somos convidados a renovar nossa fé. O fazemos utilizando a Aliança Batismal. E esta se refere, basicamente, a duas coisas: “seguir Jesus e lutar pela justiça e dignidade de todo o ser humano”.    

 

5.      Neste tempo e história da igreja diocesana, temos buscado animar a todos e todas para que percebamos nesses ensinamentos bíblicos e evangélicos,  como Deus é e age,  como Jesus foi, é e será, e como Deus continua a agir através de seu Espírito Santo. Colocando-nos a nós mesmos e a comunidade inteira, como “o Corpo místico de Cristo”, como veículo do amor de Deus. Percebendo que esse amor de Deus deve fluir em nós em favor do mundo, que é o sentido, a razão, o objeto do amor de Deus. Existimos, como gente que disse, diz e dirá sim a Deus, por causa deste bairro, desta cidade, deste país, dos pequeninos, abandonados, famintos, sofredores, enfermos, prisioneiros, que nesse contexto procuram sobreviver. Nosso desafio à comunidade diocesana é no sentido de que tudo o que temos, recursos humanos (as pessoas, os membros e amigos da comunidade), financeiros (nosso dinheiro), estruturais (templo, salão paroquial, terrenos), espirituais (nossa espiritualidade, nossas orações, nossa liturgia, os sacramentos), tudo tem que estar a serviço. Servir como expressão concreta do amor de Deus. Da mesma forma, nossa orientação aos clérigos é para que “olhem para fora” (para além das paredes do templo), pois são sacerdotes e pastores, não só da comunidade paroquial, mas do bairro onde ela se encontra. Para que olhem para a escola do seu bairro, para o hospital, para a associação, para o sindicato, os doentes, os dependentes, os solitários e deprimidos, os amedrontados pela violência e injustiça; para os famintos, para as mães solteiras, para os que precisam dos grupos de auto-ajuda como AA – Alcoólicos Anônimos,  NA – Narcóticos Anônimos, Amor Exigente etc. abrindo os espaços dos templos e salões paroquiais para que possam reunir-se. Todas as pessoas nessas situações e contextos são a razão e objetivo do Amor de Deus. E nós os veículos e instrumentos, os meios atuais e presentes da própria expressão desse amor, do Amor de Deus.

6.      Temos muitas barreiras a transpor para ser e viver uma igreja à maneira de Cristo, mas devemos e podemos superá-las. Paciência, perseverança, estudo bíblico, determinação, discussões, diálogo, planejamento, humildade, acolhida, respeito e comunhão tudo isso será importante e necessário. Há quem entenda que nossa vida comunitária não deva ir além dos cultos, que não precisa de mais nada. Com oração, estudo e reflexão, certamente poderemos superar essa visão. A Palavra de Deus certamente será uma grande aliada quando lemos “ide e fazei discípulos”; “de agora em diante serão pescadores de gente”; “o Espírito de Deus está sobre mim, pois me enviou para proclamar libertação e o ano da Graça de nosso Senhor”; “ide, eu vos envio”; “vocês são a luz do mundo, sal da terra” etc. Outros entendem que os salões paroquiais não podem ser utilizados a não ser somente pelos membros da igreja ou por outros em ocasiões eventuais. Esquecemo-nos que esse “ente” da estrutura física do nosso patrimônio é também um dom de Deus. E, se é dom, é presente de Deus. Assim compreendido deverá ser utilizado de tal forma que seja muito útil para expressar o próprio amor de Deus. Barreiras da acomodação, certamente que tudo o que se fizer a mais, além do culto, exigirá mais trabalho, preocupações, temores, mais custos: “Não podemos, não temos dinheiro, as contribuições não são suficientes”. O que realmente é feito para superar essa condição? Muitas barreiras são até justificáveis. Lembremos que Pedro, justificadamente, aproximou-se de Jesus e disse: “Não toma o caminho de Jerusalém”. Justificadamente, preocupou-se com Jesus, procurou dissuadi-lo da sua missão. Entretanto, Jesus lhe disse: “Afasta-te de mim, satanás”.  Ainda, atualmente, escutamos: “Não atendam mais essa gente, não vale a pena, não vai resolver nada”, ou: “Estão sujando ou estragando nosso espaço”, ou ainda: “Os vizinhos estão reclamando”, ou: “A policia vem aí, não vai ficar bem para a igreja”. Esquecemo-nos de que nada pode nos desviar da nossa vocação e compromisso com Jesus Cristo. Como igreja, somente saberemos o que Deus quer de nós olhando em nossa volta, para a nossa realidade, para o nosso mundo. Respondendo à pergunta, “por que estamos aqui, nesta cidade, neste bairro? Por que Deus nos colocou aqui? O que Ele quer de nós neste lugar? Nossa liturgia nos dá muitos subsídios e nos facilita nessa reflexão, ilumina nossa visão, alarga nosso coração, inspira-nos para o caminho da Missão.  Prepara-nos para ouvir com atenção, animação e entusiasmo a proclamação: “Ide, sede corajosos e fortes no testemunho do Evangelho entre todas as pessoas. Servi ao Senhor com alegria”. Amém.      

 Que Deus nos ajude e inspire para que assim seja. Amém.   

Leave a Reply